Notas sobre “Os Negos do outro lado”

Por Leci Brandão

A primeira vez que estive em Petrolina fui arrebatada pela imagem do Rio São Francisco, ou Velho Chico, como dizem os que nasceram às suas margens. Mas além da paisagem, fiquei ainda mais envolvida pelas pessoas que ali conheci. Ao receber o convite para fazer esses breves comentários sobre Caio Evangelista e seu livro, “Os Negos do outro lado”, que nos remete não apenas às paisagens do semiárido pernambucano, mas também aos jeitos de ser das gentes que lá vivem, é inevitável pensar na riqueza da diversidade do povo brasileiro. Apresentar essa diversidade por meio de uma linguagem que nos embala entre o real e o imaginário é, certamente, o mérito desta obra e o que desperta o interesse de seu leitor.

Em seu quarto romance, Caio fala de um Brasil real, muitas vezes violento e embrutecido, ao mesmo tempo, também se refere a um lugar mágico e poético, com personagens contraditórios e complexos e que, muitas vezes, só podem ser vistos pelos que conseguem enxergar para além das invisibilidades que permeiam a sociedade brasileira, principalmente quando se trata de negros e pobres. 

Neste livro, Caio apresenta um narrador que costura fatos, compondo várias histórias que se entrelaçam, conduzindo e alertando o leitor não apenas sobre o ritmo da narrativa, mas contextualizando-a a partir de fatos históricos. Assim como acontece com o narrador, somos nós, leitores, “batizados aos poucos nas águas dessa história”.

Real e imaginário se confundem a todo momento nos “causos” contados por Raimundo, Redonda e Dimas. Lugares, árvores e animais se tornam personagens muitas vezes determinantes da narrativa. O jatobazeiro que dá nome ao povoado de Jatobá (atual Petrolina), a Ilha do Fogo, a Pedra Linda e o cachorro Lorde são, entre outros, elementos importantes no desenrolar das histórias que têm como pano de fundo fatos como a Conjuração Baiana, a seca de 1877 no Nordeste ou a visita de D. Pedro II à região.

Entremeando tudo isso estão os pilares sobre as quais se constituiu a formação da sociedade brasileira: o racismo, a opressão das mulheres, o abandono dos pobres e as injustiças sobre os mais fracos, fatores que não poderiam passar despercebidos pelo olhar aguçado de Caio Evangelista, que tem no Direito, no Teatro e na Educação as bases de sua formação acadêmica e sua trajetória profissional.

Portanto, como artista que construiu toda sua trajetória falando das questões sociais vividas pelo nosso povo, eu não poderia deixar de dizer da minha satisfação em apresentar este livro que, de forma poética, também aponta as injustiças do nosso país.

Boa leitura!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s