Comportamento e espiritualidade
Fé no limite: um dia de cada vez sem explodir
A espiritualidade, pra mim, não tem nada daquela vibe iluminada de quem acorda sorrindo antes do sol nascer, agradece a vida e toma chá de camomila olhando pra um cristal. A minha é mais parecida com um pedido de socorro enviado direto do caos: deus, me ajuda a não surtar hoje, porque sinceramente não sei quem inventou que a vida adulta precisava ser tão complexa.
É sempre assim: eu acordo já cansado, sabendo que vou lidar com decisões que eu não pedi, problemas que apareceram sozinhos e mensagens que eu jurei que ia responder “com calma depois”. Mentira pura. Depois nunca chega. E quando chega, eu estou dirigindo, atolado no trabalho ou simplesmente sem condições emocionais de lembrar que eu falo português. Aí eu tiro até o visto de leitura pra não parecer mal-educado. Olha o nível da espiritualidade moderna: proteger minha reputação porque eu estou mentalmente esgotado.
Tem gente que acha que fé é luz, paz, alinhamento, céu azul. A minha fé é mais “deus, se eu não respirar fundo agora, eu vou responder essa pessoa com uma sinceridade que ela não tá preparada”. Fé, pra mim, é esse acordo informal que eu faço todas as manhãs: eu me esforço pra não explodir, e deus tenta garantir que o universo não faça hora extra só pra testar minha paciência.
E o universo testa, viu. Chega cobrança, chega pepino familiar, chega problema na fábrica que brota igual mato em terreno abandonado. Chega tudo de uma vez, como se o sistema tivesse decidido que eu realmente preciso de material fresco pra evoluir espiritualmente. E aí eu faço o quê? Respiro, olho pra cima e repito meu mantra: “deus, não deixa eu perder a linha hoje, porque se depender só de mim, a chance é alta.”
Mas o mais engraçado é que, no final do dia, funciona mais ou menos. Não vira um milagre, mas eu sobrevivo. Às vezes por pouco, meio arranhado, meio frustrado, mas inteiro. Porque espiritualidade, pra mim, não é ficar zen; é não mandar ninguém pro inferno antes das dez da manhã. É um exercício diário de autocontrole e ironia.
E quando eu chego em casa, derrotado porém vivo, eu penso: “valeu, deus. Foi tenso, mas deu pra passar sem virar matéria no G1. Amanhã a gente tenta de novo.”
@enricopierroofc
