A creche

Morávamos no final de 1977 num apartamento no centro de Santo André.

Era um apartamento já antigo naquela época, o banheiro tinha ainda aquela descarga tipo Hydra, embutida na parede. Belo dia ela trava, não havia jeito de arrumar, até porque o problema também foi no encanamento.

Então vamos nós atrás de um encanador, e o resultado foi uma parede quebrada de cima a baixo, azulejo super antigo, nunca achamos um igual.

Por um bom tempo ficou aquela bela cicatriz na parede, e minha mãe reclamava só umas cinco vezes por dia.

Vivia dizendo pro meu pai que precisava arrumar aquilo porque estava  horrível.

A resposta era sempre a mesma, não tá dando descarga?  

Então … tá tudo bem.

Quando eu puder a gente vê isso, agora tô meio sem dinheiro, o movimento do cartório caiu bastante e agora não posso.

Meu pai nessa época, já era oficial maior do cartório em Mauá, onde ficou até morrer em 2002.

Num sábado, meu pai me acorda e diz, vai buscar sua namorada (que depois foi minha esposa) e vamos prá Mauá, vai haver a inauguração de uma creche lá e depois vamos almoçar, eu quero todo mundo lá.

E assim foi.

Cerimônia, o presidente da entidade assistencial pega ao microfone para o tradicional discurso e começa dizendo :- só estamos aqui hoje graças à ajuda do Seu Constante do cartório que se mobilizou e ajudou a financiar essa reforma tão necessária para manter a saúde das nossas crianças.

Minha mãe com uma cara de poucos amigos diz bem baixinho, prá arrumar o banheiro não tinha dinheiro mas prá reformar a creche apareceu?

É claro que ela ficou orgulhosa disso como todos nós, até parou de reclamar do banheiro, mas logo ele foi arrumado.

O que aconteceu é que numa visita à creche, ele notou que a maioria das crianças estava resfriada e com o nariz escorrendo. Um sobrinho dele, meu primo  Gilson, que é médico sanitarista e um dos primeiros administradores do Hospital Nardini, foi levado até a tal creche pelo meu pai prá ver o que acontecia.

O diagnóstico foi simples, as paredes estão coladas num barranco do morro e estão com infiltração, enquanto isso não for arrumado, não tem como manter as crianças saudáveis.

Bastou isso pro velho se movimentar para ajudar na reforma da creche.

Prá ele não tinha tempo ruim. Quem o conheceu sabe do que estou falando.

Esse é o espírito de ajudar o próximo que meu pai nos legou…

Constante Caliman Júnior

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