Centenário Clarice Lispector

Homenagem a grande dama da literatura brasileira.

O ano de 2020 não tem sido nada fácil. Fomos tomados de assalto por uma pandemia que arrasou com o desenvolvimento educacional e cultural do país. Existem muitos mortos e corações feridos. Eu particularmente preferia estar falando do “Perto do coração selvagem” primeiro livro da escritora. Clarice é autora de de romances, contos e ensaios. Considerada uma das escritoras mais importantes do século XX. Nascida em 10 de dezembro de 1920 na Ucrânia foi naturalizada brasileira. O ano do centenário prometia comemorações diversas pelo país afora. Todas ceifadas por essa pandemia  que faz estrago pelo mundo todo.

CRONOLOGIA DA OBRA COMPLETA

Romance : Perto do Coração Selvagem (1943), O Lustre (1946), A Cidade Sitiada (1949), A Maçã no Escuro (1961), A Paixão segundo G.H. (1964), Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969), Água Viva (1973), Um Sopro de Vida (1978)

Novela: A Hora da Estrela (1977) Contos: Laços de Família (1960), A Legião Estrangeira (1964), Felicidade Clandestina (1971), Onde Estivestes de Noite (1974), A Via Crucis do Corpo (1974), O Ovo e a Galinha (1977), A Bela e a Fera (1979), Literatura infantil: O Mistério do Coelho Pensante (1967), A Mulher que Matou os Peixes (1968), A Vida Íntima de Laura (1974), Quase de Verdade (1978), Como Nasceram as Estrelas (1987), Crônicas: Para Não Esquecer (1978),A Descoberta do Mundo (1984), Correspondências, Correspondências (2002),Minhas Queridas (2007), Entrevistas: Entrevistas (2007), Artigos de jornais,Outros Escritos (2005), Correio Feminino (2006), Só para Mulheres (2006).

Trecho da crônica PERTENCER publicada no Jornal do Brasil em 1968.

(…) “Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos – e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.

Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho” (…)

Clarice Lispector

Grandes nomes da música brasileira homenagearam a escritora. Entre eles Caetano Veloso, Titãs, Cazuza e Barão Vermelho. Que mistério tem Clarice e Epitáfio são clássicos absolutos que podem ser apreciados a qualquer tempo.

Caetano Veloso

Em meio a esse turbilhão pandemico destaca-se o Centro Universitário Ítalo Brasileiro que iniciou as atividades comemorativas em 10 de dezembro de 2019 mas em decorrência da pandemia não pode dar continuidade nas atividades que se estenderia pelo ano todo com encerramento neste 10 de dezembro de 2020. Trabalho coordenado pela professora Andréia Altarego tendo como protagonistas convidados os atores Valter Carriel e Kate Hansen.

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