O projeto de escrever 365 textos acabou virando um diário involuntário, uma coleção de imprevistos e a descoberta de que até uma alface pode ter boas histórias para contar.
chapéu: Alface Persistente
No dia primeiro de janeiro deste ano eu comecei um projeto meio inconsequente: escrever um texto por dia, durante o ano inteiro. Trezentos e sessenta e cinco textos. A primeira entrada terminava assim, e eu juro que é verdade: “enfim, dia primeiro de janeiro de 2026. eu me sinto uma alface. espero melhorar no resto do ano.” Não era o começo literário que eu imaginava para um projeto desse tamanho. Mas era honesto, e no fim a honestidade acabou virando a única regra.
No dia 18, todo convicto, eu escrevi que não queria fazer um diário. Propriamente dito. A ideia era um texto por dia, não um relatório da minha vida, porque quem ia se interessar por isso? Nem eu. A vida, claro, não leu o aviso. Em janeiro choveu do jeito que só chove em janeiro, e a casa decidiu virar um sistema hidráulico improvisado. Eu espalhei baldes, troquei toalhas e dei nome às goteiras mais persistentes, porque dar nome às coisas que insistem em ficar é um jeito de fazer as pazes com elas. Uma delas virou quase um animal de estimação: se eu sumisse por cinco minutos, ela fazia barulho para chamar atenção. Teve noite de revezamento, eu num quarto com uns cachorros, o John no outro com os outros, todo mundo fugindo das goteiras, até o dia em que ele subiu no telhado e resolveu. Foi ali, entre um balde e outro, que o “não quero fazer um diário” perdeu a discussão.
Não vou fingir que foi disciplina de monge. Teve semana em que eu empurrei o texto para o dia seguinte com cara de decisão madura, e o dia seguinte foi sendo empurrado até eu estar devendo cinco de uma vez. Com o tempo, o diário virou um termômetro: quando eu começo a falhar ali, eu sei que tem alguma coisa desorganizada aqui dentro. Mas no dia 200 eu parei para registrar uma coisa que me deixou mais orgulhoso do que eu esperava. Duzentos dias aparecendo, mesmo quando não tinha nada para contar, mesmo quando o dia tinha sido comum demais.
E a lição mais importante veio num dia comum. O gerente de uma farmácia, que sabia que eu escrevo, virou o monitor para mim e pediu, sem aviso, uma carta de boas-vindas para uma funcionária nova. Eu gelei, esqueci que era alfabetizado, escrevi tremendo e ele adorou. Naquela noite eu anotei uma pergunta que não saiu mais da minha cabeça: por que eu fico tentando ser um quase filósofo, quando a minha vida, do balde no carro ao gerente da farmácia, já é roteiro pronto? As próximas colunas aqui são filhas dessa pergunta. A porta da geladeira, a gaveta da bagunça, a missa no projetor. Coisas da casa que eu passei anos achando pequenas demais para virar texto.
Quando esta coluna sair, o calendário vai estar no dia 306. O diário, obviamente, vai estar um pouco atrás, porque eu continuo empurrando o dia seguinte com cara de decisão madura. Mas o que já está lá tem de tudo: o dia em que eu quase escrevi “querido diário, hoje, 78 de janeiro”, a Lady Murphy, uma parente próxima da Lei de Murphy que me ama com uma dedicação assustadora, e um carro que foi e voltou do mecânico mais vezes do que eu consigo contar. Não vou explicar nenhum dos três aqui. Eles estão em diario.enricopierro.com.br, do dia da alface até onde eu consegui chegar. Eu ainda me sinto uma alface de vez em quando. Mas uma alface que, com atraso, continua aparecendo.
Enrico Pierro é escritor e colunista, autor de duas da manhã. leia outras crônicas em enricopierro.com.br
