Entre boletos e beagles.

Vida em xeque

Entre contas a pagar e a busca por sentido, uma crônica delicada revela como a simplicidade dos pequenos afetos — até mesmo no carinho de um beagle — pode ressignificar o peso da vida moderna.

Enterro as minhas mãos no pelo macio de um dos meus beagles. é quase um anestésico. sinto o calor desse pequeno animalzinho aquecer meus dedos enquanto me pergunto: qual é o sentido? da vida, de tudo isso?

O tempo todo somos direcionados a acreditar que o dinheiro é a fonte da felicidade. será mesmo? estamos construindo um mundo tão capitalista que já nem me espanta que a resposta possa ser “sim”. hoje em dia tudo gira, basicamente, em torno do dinheiro. viver se resume a pagar boletos.

Mas enquanto sinto meus dedos afundando nesse pelo macio, de quem come ração premium, diga-se de passagem, eu me questiono. não deveria a vida ser… simples? menos complicada? mais leve? talvez a resposta esteja numa utopia tão distante que já nem sabemos como redescobrir.

Às vezes eu queria ser esse beagle. sem essas preocupações e aflições que a vida empilha no nosso caminho. me preocupar só se a ração vai ser sabor frango ou carne. ou coisas ainda mais simples, como decidir se vou dormir mais um pouco depois de acordar. porque, sinceramente, que preocupações tem um cachorro mimado?

Mas a vida não foi feita para um beagle. talvez eles existam justamente para nos ajudar a aliviar alguns pesos, algumas tensões. enquanto acaricio esse pelo gostoso e invejo a tranquilidade da respiração dela, sinto que, no fundo, ela me acalma, quando não está tentando destruir minha casa ou arruinar minha reputação, claro. ela é perita nisso. mas também é alento, companhia, o pelo macio que espera por carinho depois de um dia pesado.

E o mais engraçado é que eu vivo para isso. sou devoto desses cachorrinhos que circulam pela minha casa. dizem que precisamos ter sonhos, metas… e eu tenho algumas. eles são uma delas. tão simples e tão possíveis: mantê-los bem, amá-los da melhor maneira que eu posso. mesmo que a vida não seja um beagle. mas, pelo menos, eles me ajudam a deixá-la mais leve. mais amorosa. mais babada. e, de algum jeito, mais feliz.
@enricopierroofc

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