“Raimundos em estado bruto: ‘Andar na Pedra’ celebra o caos criativo e deixa lacunas reveladoras”

O documentário “Andar na Pedra”, que mergulha na trajetória dos Raimundos, é mais do que um registro histórico: é uma experiência sensorial e afetiva sobre uma das bandas mais irreverentes e influentes do rock nacional. A produção acerta ao não tentar “domar” o espírito caótico do grupo, pelo contrário, abraça sua energia crua, seu humor ácido e sua autenticidade quase indomável.
A proposta narrativa é um dos grandes trunfos. Em vez de seguir uma linha puramente cronológica, o documentário constrói um mosaico de memórias, depoimentos e momentos emblemáticos que ajudam a entender não só a ascensão meteórica da banda, mas também seu impacto cultural nos anos 90 e 2000. Os Raimundos não foram apenas um fenômeno musical: foram um reflexo de uma geração que flertava com o politicamente incorreto, com o humor escrachado e com a mistura inusitada de hardcore com forró, algo que, até hoje, soa original.
Outro ponto alto está na forma como o documentário valoriza as personalidades fortes que compuseram a banda. Digão aparece com sua postura firme e irreverente, enquanto Canisso surge como uma figura carismática, espontânea e absolutamente essencial para a identidade do grupo. Já Rodolfo Abrantes é retratado com a complexidade que sua trajetória exige, evidenciando as tensões e rupturas que marcaram a história da banda.
Nesse sentido, é impossível não destacar a genialidade da decisão de incluir a pré-entrevista de Canisso. O recurso não apenas humaniza ainda mais o músico, como cria um efeito emocional poderoso especialmente para quem acompanha a história da banda e reconhece o peso simbólico daquele momento. É um acerto sensível, que transforma o documentário em algo ainda mais íntimo e significativo.
Se há uma ausência que merece ser pontuada, ainda que de forma leve é a pouca exploração da carreira solo de Rodolfo Abrantes. Trabalhos como os álbuns “R.A.B.T” e “Santidade ao Senhor” representam uma virada importante não só na vida pessoal do artista, mas também na sua expressão musical. Uma abordagem mais aprofundada desse período poderia enriquecer ainda mais a compreensão sobre sua trajetória e as diferentes fases de sua identidade artística.
Ainda assim, “Andar na Pedra” se consolida como um documentário potente, honesto e necessário. É uma celebração de legado, de contradições e, principalmente, de uma banda que nunca soube, e talvez nunca quis ser convencional. Para fãs e curiosos, é uma obra que emociona, diverte e reafirma o lugar dos Raimundos como um dos nomes mais marcantes da música brasileira.

Deixe um comentário