Mauá contra o Racismo: Nossas vidas importam!

Na noite do dia 06/07, o jovem Alan Braz, de 24 anos, também conhecido como Mary Onnet, passou por uma situação de discriminação racial e constrangimento no Atacadista “Assaí”, localizado na região central de Mauá. Segundo Alan, ele viu dois seguranças seguir ele no estacionamento. Os seguranças afirmavam que queriam revistá-lo justificando que uma cliente o acusou de estar armado. Ao se recusar a realizar a revista pra não ser tocado pelos funcionários, ele começou a filmar no instagram, dizendo: “Acabei de passar por uma situação totalmente humilhante e racista”. 

Quando tentou falar com a gerência do estabelecimento, ouviu como resposta que deveria procurar o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor). Por isso, conta Alan, decidiu gravar toda a ação e denunciar em sua rede social, no instagram.
Esse registro teve grande repercussão nas redes sociais. Ainda na mesma semana do ocorrido, no dia 08/07 o caso chega até uma articuladora da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio da região do grande ABC da cidade de Mauá. Após consultar a vítima, sobre a possibilidade de demonstrarmos apoio, logo organizamos por meio de grupo de whatssap, uma articulação para realização de uma intervenção no estabelecimento a fim de denunciar a discriminação racial ao mesmo tempo dar visibilidade ao caso e fortalecer Alan, para que não se sentisse sozinho.
É sabido que há muitos estabelecimentos comerciais que possuem uma sala exclusiva para praticar tortura, bem como é sabido que muitas pessoas, principalmente negras, já foram discriminadas em supermercados. O ato foi organizado de forma virtualmente, no mesmo dia, pela manhã, para ser realizado à noite.
Ao chegar no Assaí, ainda na concentração para o ato, fomos abordados pela PM e até este momento era uma viatura com dois agentes. Após respondermos sobre o propósito do ato e confirmar que se tratava de uma manifestação pacífica, minutos após esse diálogo, as portas de entrada foram fechadas com justificativa que era controle pra evitar aglomeração diante a pandemia. Outra coisa curiosa foi minutos após iniciar esse controle de entrada dos clientes, as luzes se apagaram e retornaram brevemente, em que parecia uma simulação de queda de energia e logo em seguida chega mais três ou quatro viaturas.
O ato iniciou na porta de saída do supermercado, no estacionamento, por volta das 19h45. Mesmo local onde aconteceu a violência racial. Enquanto estávamos lá, aguardando mais pessoas chegarem, os manifestantes gritavam palavras de ordem como “basta de racismo, jovem negro vivo”. Após concentrar mais pessoas, inclusive aguardávamos Alan chegar, decidimos seguir o ato uma vez que o shopping já havia sido fechado, pois era um dos trajetos pensados pra intervenção, na praça de alimentação, mas mudamos o plano quando vimos que, sair pelo shopping não seria possível.
O ato foi encerrado no Terminal de ônibus de Mauá, partindo da Av. Rosa Fioravantti, passando pela Av. Mario Covas Jr. e concluído na praça XV de Novembro, frente o terminal, por volta das 21h30.
Em nota, o estabelecimento afirma que o funcionário foi demitido, pelo fato da rede atacadista “não tolerar atos discriminatórios”.
A coordenadoria de igualdade racial da Secretaria de Justiça e da Cidadania da Prefeitura de Mauá publicou uma nota de repúdio. A Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio, que já havia denunciado tortura contra um jovem negro no mercado Ricoy, também postou uma nota de repúdio com assinaturas de mais de 70 entidades da sociedade civil.
Após o ato, que teve a presença por volta de 100 pessoas, teve repercussão nas redes socias gerando debates acerca do trabalho do segurança e a legitimidade ou não da manifestação de cunho anti-racista, sendo muitas provocações no sentido de desmoralizar a luta e ou desmoralizar a vítima, reduzindo a “mimimi” todo sofrimento e humilhação que havia passado na noite do dia 6 de julho de 2020.
Nós da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio parabenizamos a todos que construíram esse ato e reiteramos nosso total repúdio ao racismo que as pessoas negras são submetidas em situações parecidas, onde o critério racial coloca as pessoas na condição de suspeitas.
A cidade de Mauá não se cala frente a injustiças e a juventude deu seu recado: “RACISTAS, FASCISTAS, NÃO PASSARÃO!”.
Porque racismo é uma violência que gera traumas e não vamos nos acostumar com isso, nem sofreremos calados. Basta de ser tratados como criminosos! Um jovem que trabalha como lojista, numa segunda feira à noite só queria consumir em paz, mas ao ver o local lotado, desiste da compra e sai pela porta de entrada, passando a ser visto como suspeito. A pergunta é: se fosse uma pessoa branca, a abordagem seria da mesma forma?

Alan sorriu agradecido pelo ato ter sido forte e não termos sido intimidados pela polícia. A imagem marcante desse dia foi registrado pelo fotógrafo Vitor Rodrigues, em que Alan atravessou a praça de alimentação do Shopping a caminho da concentração do ato com a frase “Tire seu racismo do caminho que eu quero passar com a minha cor”.

Katiara Oliveira, articuladora da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio da Região do Grande ABC.

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