O que precisa morrer em você

Entre a dor e o recomeço

Nem toda transformação começa com esperança

algumas começam com perda, silêncio e a difícil decisão de soltar aquilo que já chegou ao fim. Ninguém gosta da sexta-feira. Não dessa. A gente gosta da ideia da ressurreição, da luz, da vitória sobre a morte. Gosta do domingo, da esperança restaurada, da sensação de que tudo vai ficar bem no final. Mas a sexta-feira da paixão é incômoda, pesada, desconfortável, porque ela não tem milagre, ela tem dor. E talvez seja exatamente por isso que a gente tenta pular essa parte. Na vida, a gente quer renascer sem passar pelo processo, quer mudança sem perda, evolução sem ruptura, transformação sem dor. Quer chegar no domingo sem atravessar a sexta, mas não funciona assim, nunca funcionou. A sexta-feira da paixão é o retrato de tudo aquilo que a gente evita encarar: o fim inevitável de algo, o peso de carregar aquilo que já não dá mais, o momento em que não tem mais como voltar atrás. É quando a vida coloca você diante do que precisa acabar e, dessa vez, não tem negociação possível. Porque tem coisa que precisa morrer. Não no sentido literal, mas no sentido mais profundo e honesto que existe. Padrões que já não fazem sentido, relações que já não se sustentam, versões antigas de você mesmo que você continua tentando manter vivas por apego, medo ou costume. Expectativas que já não cabem mais na vida que você tem hoje. O problema é que a gente resiste. Segura. Insiste. Prolonga o que já acabou porque admitir o fim dói, porque deixar morrer dói, porque aceitar que não volta dói ainda mais. A gente tenta salvar o que já não tem mais vida, como se esforço fosse suficiente pra ressuscitar o que já terminou. Mas não é. E é justamente nesse ponto que começa a transformação de verdade, não aquela bonita e inspiradora que a gente gosta de postar, mas a real, que acontece quando você aceita que algo chegou ao fim e decide parar de lutar contra isso. A páscoa não é só sobre voltar à vida, é sobre o que acontece depois da entrega. É sobre o que nasce quando você finalmente solta aquilo que já não deveria mais estar nas suas mãos. Entre a sexta e o domingo, existe o sábado, e ninguém fala muito sobre ele. O sábado é o silêncio, é o vazio, é o tempo em que nada parece acontecer, é quando você já perdeu o que precisava perder, mas ainda não entende o que vai surgir no lugar. É a parte mais difícil, porque não tem resposta, não tem alívio imediato, não tem sinal claro de que tudo vai dar certo. É só você e o que sobrou. E talvez seja exatamente aí que você esteja agora. Não mais na dor escancarada do fim, mas também não na paz do recomeço. Preso nesse intervalo estranho, onde tudo parece suspenso, onde você não é mais quem era, mas ainda não se reconhece no que está se tornando. Se for o caso, respira. Porque o domingo chega, mas ele não chega antes da hora. Não existe ressurreição sem morte, não existe recomeço sem fim, não existe vida nova enquanto você ainda insiste em carregar o que já deveria ter deixado ir. Então talvez a pergunta dessa páscoa não seja sobre fé, nem sobre religião, nem sobre tradição. Talvez seja mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil do que tudo isso. O que, dentro de você, já acabou… mas você ainda não teve coragem de enterrar?

@enricopierroofc

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