Fragilidade moderna
Enquanto cidades em guerra seguem iluminadas mesmo sob bombardeios, no brasil uma tempestade mais forte ainda consegue transformar a rotina moderna em uma experiência do século passado.
Esses dias eu estava vendo imagens da guerra. mísseis cruzando o céu, explosões, sirenes, prédios atingidos, aquela coreografia trágica que a humanidade insiste em repetir há séculos. tudo muito dramático, muito tenso, muito sério. mas teve uma coisa que me chamou atenção de um jeito meio constrangedor: as luzes.
Os prédios continuavam acesos. janelas iluminadas, ruas funcionando, apartamentos cheios de gente provavelmente assistindo à própria guerra pela televisão. bomba de um lado, sirene do outro… e a energia elétrica firme, disciplinada, trabalhando normalmente. foi impossível não pensar no brasil.
Ou melhor: em qualquer cidade brasileira quando resolve cair uma tempestade um pouco mais caprichada. porque aqui o processo é quase científico. o vento começa a soprar, o céu escurece, alguém comenta “acho que vem chuva” e imediatamente nasce uma tensão coletiva que todo brasileiro conhece muito bem.
Não é medo da chuva. é medo da luz. a tempestade nem começou e já tem gente olhando para o teto como quem observa um paciente em estado delicado. porque todo mundo sabe que a rede elétrica brasileira tem uma relação emocional muito sensível com fenômenos naturais.
Basta cinco minutos de chuva ou de vento mais forte e a eletricidade parece que é arrastada para uma realidade paralela da qual nós não fazemos parte. e pronto. acabou o espetáculo tecnológico do século xxi.
Cinco minutos antes você pagava contas no aplicativo do banco, via guerra em tempo real no celular e pedia comida por um aplicativo que promete entrega em quinze minutos.
Cinco minutos depois você está andando pela casa com o celular na mão tentando iluminar o caminho até a cozinha, procurando velas como se fosse um personagem de novela de época. daquelas bem antigas, inclusive.
É uma transformação muito rápida. o brasileiro sai da modernidade digital direto para uma experiência histórica imersiva. a geladeira vira um objeto decorativo, o wi-fi entra em estado de luto e a casa inteira passa a ter um silêncio estranho, quase solene.
E não é um apagão rápido, daqueles que duram alguns minutos enquanto alguém resolve o problema. não. às vezes são dois dias sem luz. três. quatro.
Tempo suficiente para você desenvolver uma relação afetiva com o silêncio da geladeira desligada e começar a tratar cada tomada da casa como uma peça de arqueologia industrial. o curioso é perceber que existem lugares do mundo onde caem bombas e a cidade continua iluminada. aqui não precisa de guerra. basta chover.
E talvez essa seja a grande vantagem estratégica do brasil. enquanto o resto do planeta discute mísseis, drones e sistemas de defesa sofisticados, nós já dominamos uma tecnologia muito mais avançada:
Conseguimos derrubar uma cidade inteira com uma nuvem.
@enricopierroofc
