Planejamento Fantasma
A saga de quem compra organização em papel, mas entrega tudo nas mãos do caos.
Todo ano eu decido que agora vai. Que chegou o meu momento de ser uma pessoa organizada, disciplinada, focada, uma verdadeira divindade do planejamento. Eu compro planner, agenda, caneta colorida, post-it, até aquele adesivo motivacional que promete “mudança de vida em 30 dias”. Eu acredito. Sou trouxa, mas sou esperançoso.
Aí passam três dias.
Três.
E o planner e a agenda que eram para organizar minha rotina viram uma biografia não autorizada da minha desistência precoce. Começo anotando tudo: metas, horários, lembretes. No quarto dia, já estou escrevendo “respirar” só para ter o prazer de riscar alguma coisa. No quinto, esqueço o planner na fábrica e a agenda no fundo da mochila. No sexto, eles já viraram uma lembrança distante, tipo uma promessa de político em época de eleição.
. Ser organizado exige uma habilidade que eu claramente não possuo: constância. Eu sou ótimo no capítulo um das coisas. Péssimo no resto do livro.
E o pior é que tem gente que diz: “Ah, mas organização é questão de hábito”. Amigo, eu tenho hábitos. São todos ruins. E bem consolidados, inclusive. Deviam me dar certificado.
A verdade é que a minha vida funciona numa lógica muito própria. Uma espécie de caos controlado, só que sem o “controlado”. Eu me entendo no meu desespero. Minhas anotações mentais são feitas num idioma que só eu falo. E mesmo assim, às vezes eu me perco na tradução.
Mas sabe o que me faz rir (para não chorar)? É que, mesmo falhando sempre, eu continuo tentando. Toda virada de mês, eu penso: agora vai. Todo domingo à noite, eu penso: amanhã começo. Toda segunda, eu já estou reavaliando se vale a pena viver de forma tão ambiciosa assim.
Organização, para mim, virou quase um hobby, desses que você não pratica, mas gosta de dizer que tem.
E no fim, tudo bem. Eu talvez nunca seja aquela pessoa que sabe onde está cada coisa, que anota tudo, que planeja tudo, que cumpre tudo. Mas eu sou aquela que tenta. Que tropeça. Que ri de si mesma. Que se abraça no caos.
E se existe uma organização nisso tudo… É só Deus que sabe entender.
