Existe um tipo de mercadoria que não aparece na nota fiscal, não passa pelo controle de qualidade e não tem garantia — mas custa caro para toda a sociedade. É a corrupção travestida de negócio.
Empresas existem para produzir, servir, inovar e gerar valor real. Quando cumprem esse papel, fortalecem a economia, criam empregos e melhoram a vida das pessoas. Mas quando deixam de entregar produtos e passam a “entregar facilidades”, o que está sendo comercializado já não é mais serviço — é influência, favorecimento e distorção das regras do jogo.
O problema começa quando o lucro deixa de ser consequência da competência e passa a ser resultado de relações obscuras. Contratos duvidosos substituem concorrência justa. Reuniões discretas valem mais do que propostas técnicas. A qualidade do que é oferecido se torna secundária — o que importa é quem está sendo “convencido” nos bastidores.
Nesse cenário, o produto vira apenas um disfarce. A obra superfaturada, o serviço mal executado, o material de baixa qualidade: tudo isso é sintoma de algo maior. A empresa não está vendendo eficiência, está negociando acesso. Não está competindo, está comprando vantagem. E, para que esse sistema funcione, alguém do outro lado também precisa aceitar o jogo — o agente público que deveria proteger o interesse coletivo e acaba se tornando parte do esquema.
É aí que nasce uma relação tóxica e perigosa. Empresários corrompem e, ao mesmo tempo, são reféns do próprio modelo que ajudaram a criar. Quem paga propina hoje terá que pagar de novo amanhã. Quem entra no esquema dificilmente sai ileso. O custo não é apenas jurídico — é moral, institucional e econômico.
A sociedade é quem arca com a conta final. Escolas mal construídas, hospitais sem estrutura, obras que não terminam, serviços públicos ineficientes. O dinheiro existe, mas se perde no caminho. O que deveria virar benefício coletivo se transforma em benefício privado.
O mercado saudável é aquele em que vence quem faz melhor, não quem se relaciona de forma mais obscura. Quando empresas escolhem o atalho da corrupção, não estão sendo “espertas” — estão enfraquecendo o ambiente onde elas mesmas precisam atuar. Corroem a confiança, afastam investidores sérios e criam um ciclo de desconfiança que prejudica todos.
Empreender não pode ser sinônimo de negociar princípios. Lucro obtido à custa de corrupção não é mérito, é distorção. E toda distorção, cedo ou tarde, cobra seu preço.
No fim das contas, empresas que não entregam produtos, mas entregam corrupção, não estão fazendo negócios. Estão ajudando a desmontar as bases da própria sociedade que permite que existam.
Robson Fonseca
