No último sábado (03/01), Donald Trump atropelou o direito internacional e as próprias leis dos Estados Unidos ao ordenar uma ação militar na Venezuela que culminou no sequestro de Nicolás Maduro. A celebração apressada da queda de um líder controverso ajudou a encobrir a ilegalidade da operação e a desviar o foco dos reais interesses americanos no país. A retórica da “liberdade”, tão repetida nas primeiras horas, ruiu já na primeira coletiva de imprensa dada por Trump.
Há meses, Washington tenta sustentar a narrativa de que Maduro comandaria um grande esquema de narcotráfico internacional por meio do chamado Cartel de Los Soles, usada como justificativa para a captura. Agora, porém, o próprio governo americano recua diante da fragilidade jurídica da acusação. O contraste se torna ainda mais evidente com o recente indulto concedido por Trump ao ex-presidente de Honduras, condenado a 45 anos por narcotráfico — um gesto que expõe o caráter seletivo e conveniente do suposto combate às drogas.
A retórica da “libertação do povo venezuelano” revelou-se vazia. A oposição, liderada por Corina Machado, teve rapidamente contido o entusiasmo de assumir o poder quando Trump descartou, ao menos por ora, qualquer iniciativa de mudança de governo. Em tom explícito de ameaça, o presidente americano deixou claro que o futuro do país não será decidido nem pela direita venezuelana, nem pelo chavismo, mas pelos Estados Unidos. As exigências impostas, sob a advertência de uma ação militar “mais pesada”, expõem quem de fato pretende ditar os rumos da Venezuela.
Já não se pode falar em interesses ocultos na ofensiva sobre a Venezuela. O próprio governo americano tratou de escancará-los sem qualquer pudor: trata-se de geopolítica e recursos naturais. Em meio à ascensão chinesa, os Estados Unidos retomam sua cruzada pela influência econômica na América Latina e, nesse movimento, atingem também o principal aliado da Rússia na região. Detentora da maior reserva de petróleo do mundo, a Venezuela deve voltar à órbita das empresas americanas. E, ainda que Trump tente negar, será Washington quem buscará controlar o destino e lucro desses barris.
Batizada de “Doutrina Dunroe”, uma releitura trumpista da Doutrina Monroe, a política já transforma o caso Maduro em instrumento de ameaça a países como Colômbia, Cuba e até a Groenlândia. O recado é claro: os Estados Unidos não pouparão esforços para sustentar um império que, apesar do discurso de força, dá sinais cada vez mais evidentes de desgaste.
Por: Pedro Gaspar
