Mulheres aprendem sobre educação machista e como libertar os filhos e a si mesmas de preconceitos sociais
Todos os cuidados para garantir o sigilo e delicadeza na abordagem foram tomados para que, neste grupo, sete mulheres pudessem abrir o coração e revelar seus medos, sonhos e insegurança. Elas são vítimas de parceiros agressores e acompanhadas pelo programa Viva Maria, da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres da Prefeitura de Mauá. O programa ‘Entre Vozes’ proporciona experiências fortes e impactantes, com troca de experiência e aulas sobre psicologia social, por isso, é coordenado pelas psicólogas Fernanda de Oliveira e Kaline Oliveira Damasceno.
Ambas as profissionais abordam o porquê e como as violências ocorrem, explicando novas formas de ver a vida, protege-la e transformá-la. E as participantes ouvem todas as falas atentamente, num despertar de solidariedade e sororidade, ou seja, se veem irmãs que precisam de apoio.
“É emocionante! Elas falaram sobre o contato com o ex-parceiro, família, Conselho Tutelar, delegacias e Justiça. Revelaram que conheceram o serviço por que uma prima ouviu falar, a outra era a irmã que tinha sido atendida e outras formas. Mas, o mais impactante, é que elas visualizam a oportunidade de reconstrução da própria vida e de poder realizar velhos e novos sonhos, como voltar para a faculdade, comprar uma casa ou, até mesmo, ter paz”, relatou a secretária de Políticas Públicas para Mulheres, Cida Maia.
Uma das conversas discorre sobre o que é gênero, uma palavra cujo significado tem sido bastante distorcido em virtude de questões políticas na sociedade. A explicação começa com cada uma dizendo o que aprendeu desde a infância como o papel das mulheres e o papel dos homens. E é feita a pergunta: “cuidar, é uma vocação das mulheres?” Completa-se: “Se um pai é ruim, por que a culpa é da mulher?”
Elas próprias chegam à conclusão que, embora a sociedade ensine que cabe ao homem o papel de provedor, uma grande parte das mulheres é quem sustenta a família e cria os filhos sozinha, “assim como eu faço”, afirmou uma jovem mãe de seis filhos. O ex-companheiro afirmava que ninguém a “iria querer com tantos filhos”. Aliás, esta fala configura um tipo de violência conhecida como psicológica. E a isso ela ressignificou, já que ela cria todos com conforto e sozinha. Para completar, ela explicou que, quando presenteia os filhos, ela dá o que pedem, independente se é carrinho ou boneca, porque acredita que é preciso criá-los para um mundo mais livre de preconceitos.
“Muitas mulheres deixaram seus sonhos de lado. Nem sabem do que gostam, porque estavam ocupadas cuidando de outras coisas. Este é um momento em que é importante que consigam voltar a sonhar ou que resgatem seus sonhos”, disse Kaline.
O relacionamento abusivo mata de várias formas”, afirma Fernanda, “a morte em vida causa muito mais danos que qualquer outra, a ponto de não enxergarem seu próprio potencial, se colocando num lugar de inferioridade, do qual fica muito mais difícil sair”.
“Viver sem violência é um direito”, reafirma a secretária. O próximo encontro deve abordar a legislação que previne e combate a violência contra a mulher.
