Por Marcos Brasil
A estreia do remake de Vale Tudo trouxe consigo a expectativa de revisitar um dos maiores clássicos da teledramaturgia brasileira, mas logo de cara deixou claro que sua abordagem seria diferente. Se na versão original a trama se apoiava fortemente na crítica social e política, nesta nova leitura esse aspecto ficou em segundo plano. O que se vê é um texto mais denso, com diálogos longos e intensos entre os personagens, algo que pode dividir opiniões entre os espectadores.
Um dos principais exemplos dessa mudança está no personagem Ivan, interpretado por Renato Góes. Na versão de 1988, ele era um homem que sofria com a instabilidade econômica e política do país, servindo como reflexo do Brasil daquele período. No remake, porém, Ivan parece ter perdido essa dimensão social e se tornou um personagem marcado pelo azar, um detalhe que pode esvaziar parte do impacto dramático que ele tinha anteriormente.
Por outro lado, o grande acerto da produção até agora foi escalar Taís Araújo como Raquel. Sua atuação é intensa e segura, conferindo à personagem um carisma e uma força que cativam o público. Ela entrega emoção e veracidade em cada cena, reforçando sua posição como uma das grandes atrizes da atualidade.
Já Bella Campos, no papel de Maria de Fátima, demonstra certa instabilidade na atuação. Em alguns momentos, ela consegue transmitir bem a essência ambiciosa e manipuladora da personagem, mas em outros parece hesitante. Ainda assim, há um viés de melhora ao longo dos capítulos iniciais, o que pode indicar um amadurecimento ao longo da trama.
Os números de audiência mostram que o público ainda está disposto a dar uma chance ao remake: foram 24 pontos em São Paulo e 31 no Rio de Janeiro na estreia, um resultado expressivo. No entanto, Vale Tudo tem diante de si um desafio gigantesco: superar a “herança maldita” deixada por Mania de Você, sua antecessora no horário. A novela anterior sofreu com críticas e baixa repercussão, o que torna ainda mais crucial que este novo projeto se firme como um sucesso.
Resta saber se a nova versão de Vale Tudo conseguirá equilibrar sua proposta com as expectativas do público. O que se viu até agora é uma produção ambiciosa, mas que caminha sobre uma linha tênue entre a reverência ao clássico e a necessidade de inovar. O tempo dirá se esse equilíbrio será alcançado.
